FAZER REFLORESCER
O CARMELO
HOJE

 

Espiritualidade Apostólica Carmelita de Madre Maria Crucifixa
e das Carmelitas Missionárias de Santa Teresa do Menino Jesus

 

 

Ir. M. Nerina de Simone, cmstmj

 

 

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

Fazer reflorescer o Carmelo é a expressão que Maria Crucifixa usa para sintetizar os conteúdos da inspiração básica para fundar, que Deus lhe deu por meio de Nossa Senhora do Carmo.[1] A mim foi solicitado que falasse sobre fazer reflorescer o Carmelo hoje, o que quer dizer procurar mostrar ao menos em grandes linhas o que significa concretizar em nossos dias o dom carismático que, por intermédio de Maria Crucifixa, foi concedido a nós, religiosas Carmelitas Missionárias de Santa Teresa do Menino Jesus e a todos os religiosos e leigos que hoje se reconhecem de várias maneiras no Carmelo e que sentem o desejo de comunicar ao maior número possível de irmãos o dom espiritual, graças ao qual se consideram pessoas felizes.

Antes de chegar a isso, é necessário estabelecer premissas a respeito do carisma da vida religiosa. Logo depois poremos, com a máxima atenção possível, os fundamentos de natureza histórico-espiritual que nos permitem compreender melhor o pensamento subentendido nas palavras de Maria Crucifixa que orientam nossa reflexão; isto nós o faremos com o objetivo de não cair em interpretações distorcidas de quanto Deus nos pede para fazer reflorescer o Carmelo hoje, objetivo último desta palestra. A propósito disso, nós nos limitaremos a sugerir linhas de reflexão que poderiam ser úteis como vestígios de caminho com a finalidade de realizar nos vários lugares do mundo onde a Congregação está presente, os objetivos de nossa Fundadora.

 

OS INSTITUTOS DE VIDA CONSAGRADA

 O que é o carisma de um instituto de vida religiosa? Em geral, um carisma é algo que vem de Deus (Cf. I Cor. 12-14) e normalmente é finalizado com o crescimento do corpo eclesial.

Ao longo da história da Igreja surgiram numerosas instituições de vida consagrada, que são um dom de Deus à Igreja (Cf. L.G. 43) para a renovação e a fidelidade evangélica (Cf. L.G. 12): são formas de vida oriundas de carismas específicos e portadoras de carismas. As mais antigas instituições de vida consagrada não são imputáveis à iniciativa divinamente inspirada de uma pessoa ou de um grupo bem determinado e não têm as características típicas do instituto religioso; por isso, é impróprio falar de um único fundador ao qual fazer remontar o seu carisma. Ao contrário, pode-se falar em senso técnico de Fundadores, a partir de Domingos de Gusmão e de Francisco de Assis, para os institutos religiosos com estrutura centralizada e amplamente descentrada terminando em um superior geral.

 

OS FUNDADORES DE INSTITUTOS DE VIDA CONSAGRADA

 Os fundadores são homens e mulheres que, freqüentemente, em momentos de particular necessidade para a Igreja, portanto, em situações sociais e eclesiais bem definidas no tempo e no espaço, receberam do Espírito Santo o dom especialíssimo de idealizar e dar vida a um instituto religioso com finalidade e estilo de vida particulares. Freqüentemente tal realização é obtida graças a um preço altíssimo de sofrimento espiritual, provocado pela estrutura sociopolítica ou mesmo pela eclesial. Em cada caso, o dom de idealizar e criar um instituto religioso é um carisma de função específica do fundador, que o identifica e não é transmissível àqueles que participam do carisma do instituto por ele fundado.

 

CARISMAS DOS FUNDADORES E CARISMAS DOS INSTITUTOS

 O carisma do instituto é fruto do carisma do fundador e lhe é inseparável, mas permanecendo uma realidade diferente dele. A ele confluem de fato somente os carismas, as experiências pastorais e espirituais do fundador que, elucidadas e selecionadas no confronto com a sociedade e a Igreja na qual ele realiza a fundação, são identificáveis naquele amplo leque de elementos que se consolidaram nas primeiras comunidades do instituto, sob o olhar e com a aprovação do fundador. Esses elementos são: a espiritualidade, o estilo específico de vida, o fim apostólico, as práticas de piedade e as virtudes particularmente recomendadas pelo fundador e, finalmente, o equilíbrio por ele impresso entre ação e contemplação e entre vida comum e atividade apostólica[2]. O carisma característico de um instituto de vida consagrada religiosa, de fato, é aquele dom particular de Deus que “abraça cada aspecto e fragmento da vida, da relação com Deus ao modo de fazer amigos, do projeto apostólico ao estilo pessoal de vida”. Na prática, acrescenta A. Cencini, esse carisma é “um quadro global inspirador no qual cada detalhe tem sua razão de ser e seu lugar preciso em estreito vínculo com o conjunto, enquanto o todo expressa a especificidade e a beleza de um projeto que vem do alto”[3]. Portanto, com o termo carisma os consagrados religiosos indicam aquela que é sua identidade como dom de Deus para a Igreja, confiado a eles, membros da Igreja, na forma de carisma de um determinado instituto, nascido graças a um fundador.

 

CARISMA DE DISCÍPULO

 Quem entra para um instituto religioso é chamado a procurar sintonizar o próprio carisma de discípulo com o carisma do instituto do qual é membro juridicamente. Isto não ocorre automaticamente com a pertença à Congregação. Podemos dizer que essa sintonia é uma verdadeira participação carismática da vocação-carisma[4] do instituto, que é humilde e fielmente buscada, implorada a Deus, acolhida com o empenho de deixar-se plasmar com docilidade total à obra do Espírito, que torna discípulos do fundador do instituto.

 

RENOVAÇÃO E FIDELIDADE AO CARISMA DO INSTITUTO

 “O Espírito sopra onde quer” (Cf. Jo 3, 8) e assim seus dons jamais são algo cristalizado: têm em si mesmos o princípio vital da renovação, porque nenhum carisma verdadeiro é válido para todos os tempos e lugares, pelo menos não o é nas mesmas formas como foi elaborado pelo fundador (Cf. I Cor. 13, 8). Entretanto, é exatamente fruto de um autêntico carisma a constante, ainda que não evidente, vivificação[5] que permite aos institutos religiosos renovarem-se na fidelidade, redescobrindo, no fecundo confronto com culturas, sociedades e circunstâncias distintas daquelas encontradas pelos fundadores, seu modo próprio de intermediar o Evangelho de Jesus nessas culturas, sociedades e circunstâncias[6]. Na maioria das vezes, esse processo de renovação começa enquanto os fundadores estão ainda vivos ou imediatamente após sua morte. A história demonstrou até agora que os institutos que não souberam trilhar esse caminho de fidelidade desapareceram como algo que se esvaziou de sua essência e permaneceu pura aparência (Cf. I Cor. 7,31): limitaram-se a gerir o existente, confundindo o imobilismo e a imutabilidade de realidades apostólicas estruturais ou espirituais com a fidelidade ao carisma. É evidente que o Espírito tenha “manifestado sua vontade de soprar para as famílias espirituais naquelas direções para as quais as orientou”[7] e sem realizar inversões de rota. A necessária renovação dos institutos religiosos ocorre na fidelidade tanto às novas condições quanto ao carisma do Instituto, porque isto é “uma realidade em movimento, aberta também a desenvolvimentos consideráveis, com a condição única de que sejam homogêneos com as inspirações fundamentais”[8]. Com estas palavras de Dom Midali, damos o primeiro passo para compreender a inspiração fundacional, o carisma de fundadora de Maria Crucifixa.

 

 1912

 

POR QUE ROSA CURCIO ESCOLHE O CARMELO

O Carmelo: a verdade de Rosa Curcio

Rosa Curcio entra ainda adolescente na Ordem Leiga do Carmelo (Ordem Terceira Carmelita) para tornar mais engajado seu caminho de fé. Em família, com exceção de sua mãe e poucos outros, a fé era vivida com uma superficialidade[9] que, freqüentemente, se tornava hostilidade aberta à prática religiosa, como testemunha o caderno das Recordações de Maria Crucifixa. Na Ordem Terceira Carmelita, Rosa assume o nome de Ir. Maria Crucifixa. Naquele ambiente de intensa vida cristã, nasce nela algo de absolutamente novo, assim descrito:

O fervor, a piedade, o espírito de oração cresciam admiravelmente; minha seráfica Santa Teresa e muitos outros Santos dessa Santa Ordem (a Ordem Carmelita) alimentavam meus santos transportes de piedade. Sentia a grande Missão que a terna Mãe do Carmelo havia predestinado para mim, isto é, ‘deveria reunir-me com outras minhas companheiras e fazer reflorescer o Carmelo em nossa aldeia e em muitas outras... Era um sonho... uma ilusão juvenil?! A graça agia em meu espírito’[10].

 

Mesmo antes desse momento, Rosa percebera claramente o chamado à vida religiosa carmelita. Lembra: “Queria ser carmelita, mas isso não era possível, porque na Sicília Instituições de vida ativa não existiam e, então, eu rezava e sonhava”[11].

Em sua pequena história, o Deus da História ia gradativamente revelando a verdade que havia preparado para ela: Ser Carmelita, uma Carmelita de vida apostólica que assumisse a missão de fazer reflorescer o Carmelo onde esse jardim (o termo hebraico Karmel se traduz como vinha, jardim; Cf. Jer. 2,7) estiver estorricado e morto. Não nos esqueçamos de que os florescentes conventos carmelitas da região tinham desaparecido por causa da supressão dos institutos religiosos, imposta pelo governo do Reino de Itália.

Portanto, o Carmelo é a verdade de Rosa Curcio. De fato, para o ser humano, escreve Saint-Exupéry, “a verdade não está realmente naquilo que se pode demonstrar [...] Se uma religião ou cultura ou escala de valores ou forma de atividade, e não outras, favorecem no homem a plenitude, fazem com que nele se liberte o grande senhor que inconscientemente existia; quer dizer que aquela cultura, aquela forma de atividade são a verdade do homem [...] a verdade para o homem está naquilo que dele faz um homem”[12]. Essa intuição nos ajuda a compreender por que Maria Crucifixa tem tão forte no coração o Carmelo a ponto de fazê-lo seu “sonho”, o fio condutor e o elemento propulsor de suas escolhas, de suas alegrias e de seus não poucos tormentos.

 

O Carmelo, no início da vida espiritual de Rosa Curcio 

Retornemos à história de Rosa Curcio. O acontecimento determinante, a centelha que acende a pólvora já preparada do amor de Rosa pelo Carmelo faísca quando, aos 11 anos, o pai proíbe a continuação dos estudos, ela que sabia ser uma menina muito bem dotada intelectualmente. É um momento crítico no qual a frustração das energias intelectivas e da capacidade social corre o risco de tornar infeliz para sempre sua vida: a perseguição improdutiva daquela promoção sociocultural tornara-se “sua luta contra os moinhos de vento”. De fato, ela procura saciar-se lendo os livros escolares em desuso dos irmãos, mas “ficava muito mais em jejum do que antes”[13], até que uma das mais conhecidas santas da Ordem Carmelita vem romper o círculo vicioso. Teresa D’Ávila irrompe na vida de Rosa Curcio com seu impetuoso texto autobiográfico. O texto tem como objetivo mostrar ao leitor como e por que a vida da narradora estava vazia de significado até que ela se dedicasse totalmente à oração e como esta foi o meio que fez de Teresa uma mulher feliz, porque criou uma relação de amor com Ele.

A angústia existencial de nossa menina contrariada torna-se o seio materno onde toma forma e nasce a carmelita Maria Crucifixa que, a partir daquele encontro feliz, volta à serenidade, perde o interesse pelo estudo que a teria tornado socialmente importante e dedica-se totalmente “ao estudo das coisas celestes”, à oração, à meditação, à vida sacramental e às leituras espirituais[14]. Na prática, Rosa descobriu o caminho mais autêntico para realizar seus desejos profundos e para exercer plenamente seus não poucos dotes e energias. Abandonado aquele limitado objetivo que era a promoção social, focaliza um objetivo ilimitado: o próprio Deus, conhecido graças à Carmelita de Ávila como “Aquele pelo qual sabemos ser amados” e que “ninguém jamais o teve como amigo, em vão”[15], amante e digno de ser amado de modo infinito.

Rosa Curcio inicia aqui sua verdadeira vida espiritual, pois descobre Deus como pessoa viva e presente e decide viver somente para Ele, colocando a relação com Ele no centro da própria identidade e existência[16]. Assim, é radicalmente ressignificada a partir da pessoa de Deus, isto é, enfim é compreendida e definida a partir de uma perspectiva diferente mais intensa do que aquela na qual era interpretada até o momento[17]. Agora, Rosa não ama ninguém a não ser Deus e isto a transforma. “Ser enamorados de Deus é a atuação fundamental de nossa intencionalidade consciente” e,”como experimentado, é ser enamorado de um modo que não conhece limite algum. Todo amor é doação de si, mas ser enamorado de Deus é ser enamorado sem limites nem restrições nem condições nem reservas”, como a máxima realização da capacidade humana de autotranscendência [18]. É aquele dinamismo interior propriamente humano que, quando favorecido, impulsiona a pessoa para além dos próprios limites, faz com que abandone os redutos do egocentrismo e navegue em mar aberto ao encontro dos outros e do Outro Absoluto, Deus.

 

Humus carmelita a Ispica

Entretanto, não é somente a gratidão para com Teresa D’Ávila que impulsiona Rosa Curcio a desejar ser uma religiosa carmelita. Este seu impulso é, sem dúvida, preparado e favorecido também por um humus de antiga e enraizada devoção popular a Nossa Senhora do Carmo, na aldeia de Spaccaforno, que Rosa absorve e depois desenvolve largamente em todo o curso de sua vida[19]. Não é por acaso, exatamente, que a “terna Mãe do Carmelo” lhe confia a missão de fundar o Carmelo feminino missionário.

 

O Carmelo: lugar adequado a Rosa Curcio

Considero, porém, que bem mais determinante em Rosa é o fato de que a espiritualidade do Carmelo, assim como ela conhecia na Santa de Ávila, na vida na Ordem Terceira Carmelita e na devoção à Senhora do Carmo, corresponde a suas características espirituais humanas e por isso se sente perfeitamente à vontade em tal espiritualidade. Vejamos mais de perto alguns motivos desta afirmação.

Maria Crucifixa, cuja crisálida é a adolescente Rosa, mostra-se a nós como uma mulher íntegra e incapaz de concessões por força de uma extraordinária liberdade interior. É pessoa dotada de uma grande capacidade de introspecção e de interioridade, que se volta inteiramente para as próprias metas, em essência, para Deus. O modo como ela vive a relação com Deus poderia ser descrito como responsavelmente passivo:

      1.      passivo, porque tipicamente místico, total, contínuo e radicalmente aberto e receptivo à presença e aos dons Dele;

2.      de modo responsável, porque jamais inoperante, sempre pronto a responder àquela presença, participando e compartilhando com Deus em Cristo tudo aquilo que Ele lhe apresenta como próprio desejo ou necessidade ou coisa agradável, compartilhando também com quem lhe está próximo os frutos da relação com Deus e mostrando-se disponível para levar os outros a usufruir da mesma relação. Nas relações humanas, Maria Crucifixa é ao mesmo tempo amável e forte, líder e administradora daquilo que lhe é confiado; sabe ser delicada e respeitosa com os outros; entretanto, jamais é indiferente e distante em seus confrontos, por isso não se priva de intervir com eficácia na vida de quem lhe está próximo e de quem compreende facilmente as eventuais dificuldades.

 

A sábia economia que a vida do Carmelo realiza entre os vários componentes da existência de quem a abraça é orientada de modo que “medite dia e noite a lei do Senhor, velando em oração”[20] para atingir a completa comunhão de vida com Ele sem fechar-se no intimismo, mas abrindo-se à fraternidade realizada ao redor de Cristo no lugar de sua Mãe[21] e exercida no serviço de que os irmãos têm necessidade no território onde os(as) Carmelitas vivem[22]. Na época da formação de Maria Crucifixa, era ressaltado quase exclusivamente o primeiro aspecto da vida carmelita, o da busca da comunhão com Deus. Essa comunhão, entretanto, era promovida de forma marcadamente individual e não era buscada principalmente na leitura orante da palavra de Deus (Lectio Divina), como havia sido para os Carmelitas das origens e como é proposto aos de hoje[23]. Propunha-se como instrumento principal para a comunhão com Deus a oração mental na trilha da experiência de Santa Teresa D’Ávila e da reforma tridentina[24], uma vez que esse exercício era considerado o único instrumento eficaz de união individual com Deus, podendo até prescindir completamente da Palavra de Deus e da orientação eclesial-fraterna. Com autoridade, dá testemunho disso G. Brenninger, comentando o capítulo 7º da Regra do Carmelo: “para sermos consoantes ao espírito da Santa Regra, devemos amar a solidão da cela e devemos, além disso e, sobretudo, buscar o recolhimento interior e a união com Deus”; continuando, o texto coloca essa busca da união com Deus em relação direta com a meditação cotidiana em comum[25]. A essas palavras faz eco Gabriel de S. M. Madalena: “Quando o Carmelita fala da perfeição, ele a apresenta como união da alma com Deus; e não pensa em propô-la com moderação, mas na realização mais perfeita a que se possa chegar sobre a terra”, que é a transformação em Deus obtida por força do amor[26].

Essa perspectiva foi fortemente enfatizada nas correntes mais eminentes de reforma do Carmelo e especialmente pela “mais estreita observância”, surgida em Touraine, no final de 1600. Tal reforma propunha o “retorno ao ideal carmelita de oração, solidão e silêncio”, acentuando “o caráter pessoal e interior” daquela vida na presença de Deus vivo à qual são chamados os Carmelitas, como herdeiros do profeta Elias. Por isso, os de Touraine introduziram tempos prolongados de oração mental no ritmo da vida cotidiana dos frades. Além disso, foram introduzidas “duas formas de oração consideradas adequadas para conservar o espírito contemplativo também fora do convento: o exercício da Divina Presença e da oração aspirativa”. A atividade apostólica não foi excluída nem abandonada, considerada “parte integrante da vida carmelita”, desde que mergulhada numa “atitude contemplativa”[27]. À observância de Touraine seguiu-se aquela de Siracusa, nascida em 1724, por obra, entre outros, de Padre Salvador Statella. Era conterrâneo de Maria Crucifixa, admirador e discípulo do venerável João de S. Sansão (o “mestre espiritual” da observância de Touraine). Cultor e divulgador de uma espiritualidade fortemente eucarística e trinitária, Padre Statella plantou-a fortemente em Spaccaforno, juntamente com uma forte devoção a Nossa Senhora, no convento local do Carmo. Com toda a probabilidade, na Ordem Terceira Carmelita a que pertenceu Rosa Curcio havia muito dessa sua espiritualidade[28]. Não é de espantar, portanto, que Maria Crucifixa escreva a suas filhas que “a vida de oração é o espírito de nossa Ordem Carmelita. Nós não somos chamadas à vida de clausura, mas à vida ativa e devemos alimentar a união com Deus para ter força em nossas ações materiais”[29].

 

Em síntese

O Carmelo, portanto, parece feito de propósito para ser o ambiente e o estilo de vida que coloca Irmã Maria Crucifixa na situação de ser ela mesma, de conhecer e viver a própria verdade humana, em sua capacidade de centrar-se radicalmente em Deus, embora sem excluir a relação e o serviço ao próximo. Ela pode conseguir nisso um desenvolvimento de si mesma e de seus dotes que, na união constante com Deus, lhe dá serenidade e confiança em qualquer situação, visto que a orienta a buscar unicamente Deus, a viver continuamente com Ele, a encontrar Nele a própria felicidade que supera toda compreensão meramente mundana, a colocar-se a serviço do próximo com entusiasmo e generosidade com a única finalidade de conduzir os irmãos ao encontro com Deus. Em resumo, o Carmelo permite a nossa Fundadora viver segundo o próprio carisma pessoal uma vez que Deus a fez Carmelita. Disto Rosa Curcio toma consciência graças ao encontro com Santa Teresa D’Ávila. Como para ela o Carmelo foi o instrumento divino e o ambiente de sua felicidade, evidentemente foi natural para ela pensar que isso poderia sê-lo para outras pessoas. Por isso compreende sua vocação como um chamado ao Carmelo e para o Carmelo, que ela vê esmorecer, incapaz de realizar sua missão, pois está inerte em razão das supressões. Portanto, Rosa deve “reunir-se com suas companheiras e fazer reflorescer o Carmelo em sua aldeia e em muitas outras”[30].

 

 attorno alla Madre e Sorella di tutti i Carmelitani

 

O CARMELO SEGUNDO MADRE MARIA CRUCIFIXA

Linhas principais de uma vida no Carmelo

Para compreender o que significa para Madre Crucifixa fazer reflorescer o Carmelo, procuremos agora ver melhor como ela é Carmelita. Madre Crucifixa fez sua - por osmose e por sintonia - uma espiritualidade carmelita fortemente contemplativa, que ressalta o aspecto individual da relação com Deus sem suprimir o particular carimbo apostólico do carisma carmelita. Rosa vive tudo isso como relação de amor sempre total com Aquele que é Amor e como tal se revela. Assim, desde a primeira graça particular, Cristo se manifesta a ela na forma do Sagrado Coração[31]. O episódio ocorre “durante uma ocupação” e é imediatamente precedido por um outro favor, saboreado “em uma comunhão”[32].

A contemplação na ação e a centralidade da Eucaristia e do Sagrado Coração de Jesus com Deus permanecem, juntamente com a marca mariana, as características eminentes da vida espiritual carmelita de Maria Crucifixa.

 

Maria Crucifixa é missionária porque é “reparadora”

A dimensão apostólica do carisma do Carmelo é exigida pelo amor de Deus, porque graças a uma relação mais estreita com Ele se é estimulado a contagiar esse amor. Tal dimensão do carisma jamais foi negada ao longo da história da Ordem do Carmelo e é um elemento posterior para compreender como Maria Crucifixa não sinta como sua a vocação ao Carmelo claustral, embora este na época fosse o caminho mais normal para que uma mulher chegasse à vida religiosa carmelita. Entretanto, a estrada de Rosa Curcio era outra, suas linhas condutoras estavam traçadas nela e estavam emergindo com clareza exatamente em relação ao carisma contemplativo do Carmelo. No tempo da maturidade, de fato, Maria Crucifixa se expressa assim: “A Santinha (Santa Teresa de Lisieux) me fez ver imensas cidades, aldeias e bosques, ainda não iluminados pelos Missionários. Inspirou-me um ardente desejo de salvar todas aquelas almas que estão nas trevas e no erro”[33]. Já notamos que sua atitude espiritual de fundo, em consonância a sua identidade pessoal, é a passividade responsável. Agora podemos compreender mais profundamente como essa atitude é típica do carisma carmelita. Em razão desse modo de ser, Maria Crucifixa é aberta e disponível aos dons de Deus e ao dom que é o próprio Deus; ela deseja que todos os homens possam gozar dos mesmos dons, motivo pelo qual não pode e não quer reter para si esses dons e os frutos que advêm deles.

Não o faz nos confrontos de Deus, para quem vive uma “consagração particular ao amor de Deus em estado de vítima de expiação pelos pecados, tanto que sua espiritualidade específica pode definir-se como vida unitiva por uma participação na obra redentora e expiadora de Deus em união com Cristo Paciente[34] para reparar os pecados e a indiferença dos homens para com Aquele que “nos amou e deu-se a si mesmo por nós, oferecendo-se em sacrifício de suave odor” (Cf. Ef. 5,2).

Não retém para si os dons de Deus nem mesmo nos confrontos dos homens, sobretudo em relação àqueles que, pelos pecados ou pela indiferença em relação a Deus, poderia facilmente desprezar ou condenar sem apelo, fazendo-se bela pelo próprio estado de graça. Pelo contrário, ela os chama “irmãos”, repetidamente, sem retórica, ela se oferece pela salvação eterna deles. Maria Crucifixa cultiva constantemente, por toda a vida, essa partilha da paixão de Cristo pela salvação dos homens e se sente estimulada a agir de modo concreto para que, conhecendo de modo pessoal o amor que Deus tem por eles, voltem para Ele.

 

A reparação

De fato, na espiritualidade cristã, como afirma sinteticamente A. Tessarolo, reparação é um termo que “indica a participação do cristão na obra redentora de Cristo”[35]. Isto se realiza tanto com a oração e a penitência quanto com o apostolado e o serviço da caridade e ocorre sempre em relação a dois objetos, neste campo inseparáveis um do outro: o Criador e a criatura.

 

1.      Em relação ao Criador:

A.     com aqueles sinais de amor que são a oração e a penitência, repara-se em Seu coração a falta de amor dos outros homens;

B.     com  o apostolado, fruto daquele mesmo amor, pois reportar suas criaturas à comunhão com Ele é um gesto de amor e adoração; portanto, um modo de demonstrar-Lhe que participamos de suas preocupações.

 

2.      Em relação à criatura:

A.     a oração e a penitência são meios poderosos para implorar sua conversão a Deus e para plasmar em quem reza por eles atitudes de misericórdia e disponibilidade em seus confrontos;

B.     o apostolado, pois ajudar os afastados a voltar para a comunhão com Deus é um ato de amor em relação a eles, é um modo de promover sua consciência sobre a dignidade de filhos de Deus e irmãos de cada homem[36]. Desta maneira prolonga-se em nosso hoje a obra de Cristo, único verdadeiro Reparador e única vítima expiadora de nossa fé, unindo-se a Ele em um amor total e eminentemente misericordioso.

 

Compreendemos bem, neste ponto, que a espiritualidade reparadora - corretamente entendida e vivida - não pode ser identificada somente com práticas de penitência ou de oração mais ou menos compreensíveis à sensibilidade atual. Configura-se como verdadeira e própria espiritualidade: a dimensão místico-ascética pessoal expressa-se e alimenta-se em uma vivência caritativo-apostólica adequada. De fato, cultivada assiduamente pelo povo de Deus, essa espiritualidade tornou-se fonte de uma existência autenticamente cristã confiada aos cuidados de uma pessoa divina, boa e generosa, dedicada à oração confiante e vigilante, ao culto do Cristo vivente na Eucaristia por amor do homem, ao apostolado – missionário e não – como também às obras de misericórdia corporal. Quão importante tenha sido a espiritualidade do Sagrado Coração no século XIX, encontramos confirmação no fato de que, entre 1830 e 1910, foram fundadas 268 congregações religiosas de vida ativa intituladas ao Sagrado Coração de Jesus e ou Maria[37]; numerosas foram também as famílias religiosas com titulação e espiritualidade reparadora expiatória[38]. Tudo isto e justamente da época em que Maria Crucifixa se formou espiritualmente e foi educada a amar mais o Cristo, visto que outros homens o amam menos, tornando-a amante do Sagrado Coração de Jesus e reparadora das ofensas para com Ele.

Também o Carmelo se associa ao caminho eclesial ligado à devoção ao Sagrado Coração, coisa que, sem dúvida, aumentou em Maria Crucifixa a certeza de estar “na própria casa”, na Ordem. Mais uma vez é testemunha Padre G. Brenninger que, entre as devoções necessárias para formar os frades da Ordem Carmelita, acrescenta aquela ao Sagrado Coração com as práticas reparadoras a ela ligadas, dando destaque particular àquelas referentes ao culto eucarístico[39]. Testemunhos ulteriores chegam de três santas do Carmelo: Santa Teresa Margarida Redi (1747-1770),  a “neve ardente” de amor ao Sagrado Coração; Santa Teresa do Menino Jesus (1873-1897) que, inspirada pelo próprio Cristo, “para viver em um ato de perfeito amor, oferece-se como vítima de holocausto ao Amor misericordioso, suplicando-lhe de consumi-la sem descanso, deixando transbordar em sua alma ondas de infinita ternura contidas Nele e assim tornar-se mártir de seu Amor”[40]; finalmente, Elisabeth da Trindade (1880-1906) “Se faz vítima e oferente junto com Cristo na cruz [...], abandona-se nas mãos do Pai de toda misericórdia”, desposando Cristo sacerdote com a finalidade de “ser instrumento de salvação para toda a humanidade [...] entre os muros do mosteiro”[41].

 

A reparação vivida por Maria Crucifixa

Maria Crucifixa tornou própria e elaborada de uma forma toda sua essa herança tão rica e transmitiu-a à congregação que fundou. Escreve, dirigindo-se a Padre Lourenço, no Diário Espiritual:[42]

(depois de ter recebido a Eucaristia) senti intimamente que Jesus me comunicava a dor imensa que sente seu Coração Eucarístico em não se ver jamais desejado por um número tão grande de almas redimidas por Ele. Nutrem-se de alimentos venenosos e renegam o Alimento dos eleitos! Pai querido, como compreendi assim profundamente essa ingratidão do coração humano para com um Deus tão repleto de imensa Bondade, mas essas dores não podem ser manifestadas. Quem ama apaixonadamente o Imenso e Puro Amor pode compreender essas dores íntimas que Jesus se digna comunicar a suas almas fiéis. Eu me ofereci vítima por esses irmãos infelizes e especialmente por meus parentes e por esta cidadezinha (Santa Marinella) que forma um espinho agudo para o Coração de Jesus e me via comparecer diante do Pai Eterno, devedora da ingratidão dessas almas que vivem tão cegamente. A minha dor aumentava, mas consolava muito o divino Coração. [... depois...] a hora santa, a hora do amor e da dor. Jesus esperava-me no Horto das Oliveiras, convidou-me a chorar com Ele [...]. Apoderou-se de mim uma dor imensa por minhas infidelidades, dos parentes, de todos os irmãos pecadores presentes e futuros [...]. Eu me encontrei em um mar de lágrimas! [...] Entretanto, é doce chorar as próprias infidelidades e pecados e as dos outros, e oferecer-se Vítima de Expiação juntamente com o grande Mártir do Amor. Meu Pai, Jesus tem necessidade dessas almas restauradoras da pobre humanidade[43], Ele repete para mim sempre, com diversas e mil expressões sempre novas, o Coração de Jesus Eucarístico. É uma das importantes missões que nos confiou nesta nova Instituição. Eis por que nos trouxe a este lugar que vive na indiferença, não sente necessidade alguma de Deus, não pensa que tem uma alma para salvar.

 

 

O fundamento do carisma das Carmelitas Missionárias de Santa Teresa do Menino Jesus

A expressão “almas restauradoras da humanidade” deixa compreender que Jesus faz com que Maria Crucifixa perceba que Ele tem necessidade da total disponibilidade de pessoas que saibam ser reparadoras de modo global, tanto com a oração e a penitência como com o apostolado que daí deriva. Assim podemos ainda uma vez notar que o impulso vocacional e apostólico de Maria Crucifixa não se origina na filantropia, mas sempre e principalmente pela compaixão no Cristo Deus: quanto a isto, estou de acordo com G. Stano, que afirma que Maria Crucifixa “foi por vocação e escolha de vida uma alma eminentemente reparadora. E nesse espírito de reparação, o grande motor de sua vida consagrada e um dos componentes de seu carisma de Fundadora, quis que fosse ‘moldada’ e marcada sua Família Religiosa como uma missão a ela confiada no âmbito da espiritualidade carmelita”[44]. A exatidão dessa afirmação a respeito da perspectiva propriamente reparadora-expiadora com a qual Maria Crucifixa vive e compreende o ser carmelita para si e para a própria Congregação pode advir de três observações:

Primeira observação: Parece-me que o texto recém-citado, juntamente com aquele que contém a descrição da inspiração essencial para fundar, seja de importância capital não somente para compreender a espiritualidade pessoal de Maria Crucifixa, mas também para individualizar a principalis intentio[45], o fundamento de seu carisma de Fundadora que transvasa no carisma de seu Instituto. De fato, não é por acaso que a última parte do texto é escrita na primeira pessoa do plural: “Jesus tem necessidade de almas restauradoras da humanidade [...] missões que nos confiou nesta nova Instituição”.

Segunda observação: Do que sabemos até hoje, Maria Crucifixa jamais pensou inserir na denominação de sua Congregação termos que se referissem à expiação ou à oferta como vítima de si nem à reparação ou ao Sagrado Coração de Jesus. Entretanto, dada a intensidade com a qual ela vivia e queria que se vivesse essa espiritualidade, teria sido óbvio expressá-la na denominação do instituto. Os nomes das congregações religiosas, com certeza, não são escolhidos ao acaso, mas são funcionais para oferecer uma apresentação sintética do carisma do qual a própria congregação é depositária. Entretanto, segundo minha opinião, o instituto fundado por Maria Crucifixa tem igualmente no próprio nome a apresentação do carisma: Irmãs Carmelitas, que procuram a união completa e contínua com Deus em Cristo, intenção da qual nasce e à qual tende a espiritualidade da reparação; Missionárias, isto é, apóstolas, como verdadeiras carmelitas, por amor e impulso de Deus, portanto, ativamente reparadoras em relação a Ele e a suas criaturas; de Santa Teresa do Menino Jesus, que é a santa que, no Carmelo, viveu de modo mais exemplar a dimensão-vítima da relação de amor com Deus.

Terceira observação: Além disso – e esta é a última confirmação que procuramos – são constantes os apelos de Maria Crucifixa para que suas Irmãs tenham continuamente a atenção voltada para a oferta de si mesmas pela reparação, porque isto, segundo seu parecer, é o núcleo central da vida religiosa carmelita. Que valha para todos o que escreve a uma Irmã:

Seja nossa tarefa aplicar-nos para progredir nesse amor que nos leva à perfeição cristã, à qual a alma religiosa deve aspirar de forma extraordinária. Procuremos enriquecer nossas jornadas com a oferta contínua de nossas ações, dos pequenos sacrifícios, das mortificações contínuas [...]. Que sua vida seja um holocausto contínuo[46].

 

Contínua oração e oferta de si

O freqüente uso do termo ”contínuo” referente à oferta reparadora ilumina para nós um outro aspecto da espiritualidade tipicamente carmelita que Maria Crucifixa vive e transmite a suas filhas: a oração contínua. Para ela evoca o citado capítulo 7º da Regra e a tradição espiritual do Carmelo, tornando-o um aspecto característico do modo carmelita de viver a fé cristã.

Para Maria Crucifixa, oferecer-se e pedir às Irmãs que se ofereçam continuamente a Deus como vítimas é também um modo de rezar sem solução de continuidade: um modo para ser carmelita na união total a Cristo e para não reduzir essa união ao intimismo, tornando-a, como foi para Cristo, operante no apostolado “restaurador da humanidade”. Não por acaso Maria Crucifixa exorta as Irmãs para que sejam também “as sentinelas vigilantes do Tabernáculo, tenham sempre o coração, também no trabalho e no local de suas tarefas, em adoração diante da Hóstia de Amor”[47].

 

A reparação eucarística

Uma última anotação vem proposta pelo trecho do Diário Espiritual. Este evidencia, entre outras, a “contemporaneidade”[48] e a compaixão que Maria Crucifixa vive com Cristo. Isso nos mostra sobretudo como, em sua percepção, a Eucaristia jamais estava desvinculada da imagem do Coração de Cristo e do conseqüente impulso à reparação expiadora. Maria Crucifixa vive e propõe às Irmãs, como evidencia o texto citado há pouco, uma contínua e intensíssima relação de amor com Cristo na Eucaristia. Não nos estenderemos sobre este tema vastíssimo, mas ressaltamos que essa característica eucarística revela mais uma vez que Maria Crucifixa é digna herdeira e grande intérprete do quanto recebeu no Carmelo.

Entre a espiritualidade do Coração de Jesus e o culto eucarístico existe um vínculo íntimo. Sacramento do amor divino que se doa pela vida de seu povo e permanece “no meio” (Cf. Jo 1,14) dele, a Eucaristia celebrada, recebida e adorada é a presença viva e autodoadora do Cristo-amor que se venera no Sagrado Coração. Por isso, não é de espantar que “a tônica que dominou a espiritualidade eucarística do século XIX é o convite à adoração, ao colóquio afetuoso e confiante para nutrir-se do Corpo e do Sangue de Cristo”[49]. Assim, a centralidade da devoção ao Sagrado Coração conjuga-se com a centralidade do culto eucarístico. Também essa centralidade da Eucaristia é evidenciada na vivência do Carmelo, que interpretou de forma adequada aos tempos o papel importantíssimo que a Eucaristia celebrada e recebida teve na Ordem desde seu nascimento. A opinião tradicional é que o centro da vida do Carmelo está no capítulo 7º da Regra que prescreve “permanecer na cela, meditando dia e noite a lei do Senhor e vigiando em oração”. Dessa norma deriva a definição da finalidade da vida carmelita como união contínua com Deus, como destacamos acima em G. Brenninger e Gabriel de S. M. Madalena. Integrando essa opinião tradicional, os estudos recentes sobre a Regra do Carmelo provam que o centro da “forma de vida” carmelita não pode ser limitado ao capítulo 7º, mas estende-se até o capítulo 11; este compreende, então, alguns elementos que permitem precisar que implicâncias típicas comportam no Carmelo a prescrição contida no capítulo 7º.  Uma das implicações é a celebração cotidiana da Eucaristia (cap. 10º) em uma capela que deve ser colocada no centro das celas dos frades, quase concretizando plasticamente a centralidade que tem a memória da Páscoa do Senhor Jesus para os Carmelitas[50]. Assim, ao longo dos séculos, o Carmelo torna-se o lugar da Eucaristia. Não por acaso Maria Madalena dei Pazzi escolheu entrar no Mosteiro Carmelita de Florença por ser o único cujos costumes previam para as religiosas a comunhão eucarística cotidiana[51].

 

A reparação eucarística e a Trindade em Maria Crucifixa

No tocante a Maria Crucifixa, lembramos que ela tem na relação com Cristo Eucarístico algo que é como o alto-forno, no qual mantém constantemente a temperatura de fusão espiritualidade e personalidade. Não há quase carta ou página do Diário Espiritual em que ela não se refira de alguma forma à Eucaristia, na maioria das vezes vinculando-a estreitamente ao Sagrado Coração ou à reparação, da qual é certamente inseparável, caso se queira manter o espírito com o qual Maria Crucifixa viveu e transmitiu à Congregação. Temos demonstrações posteriores da grande freqüência da expressão “Coração Eucarístico de Jesus” (ou similares) em seus escritos. O tema mereceria amplo e detalhado aprofundamento, já encaminhado no livro de C. Del Gaudio[52].

Não podendo fazê-lo nesta sede, limito-me a lembrar que o Carmelo no qual é formada Maria Crucifixa caracteriza-se exatamente pela espiritualidade eucarística e trinitária. Disso encontramos numerosos traços, elaborados de maneira pessoal e tipicamente mística por Maria Crucifixa no Diário Espiritual. Três exemplos:

Depois da Comunhão, senti como se a alma se aprofundasse nesse mistério divino das três pessoas divinas em um só Amor. É um espetáculo de beleza a alma depois da comunhão, imersa no Oceano das Belezas Divinas. Todos os santos e anjos contemplam esse exagero de Amor ao Criador para com a pobre criatura, que eleva a tão sublime união, mesmo nesta terra de misérias[53].

No momento da Elevação da Hóstia Santa, a Vítima Divina, [...] a Santíssima Trindade aproximou-se de mim, inundou-me de luz e de amor [...] não senti os sofrimentos físicos, foi um instante de Céu, senti estas suaves expressões enquanto eu estava confusa por tanta Imensa Bondade e por esta visita inesperada... a alma é o templo da Santíssima Trindade[54].

Depois de ter recebido a Força Eucarística [...] a terna Mãe apresentou-me à Santíssima Trindade [...]. A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade me esperava como o Esposo espera a Esposa no momento dos eternos Esponsais e me apresentou ao Eterno Pai enquanto o Espírito Santo me revestia de uma chama suave[55].

 

“O Carmelo é todo de Maria”

Este último texto em que a “terna Mãe” conduz Maria Crucifixa à Trindade leva-nos a refletir sobre um elemento de grande importância para compreender o modo como Maria Crucifixa entende e vive o Carmelo: a relação filial com Maria, a mãe de Jesus. A Ordem dos Carmelitas é chamada oficialmente de “Irmãos de Santa Maria do Monte Carmelo” desde 1250[56]. Os Carmelitas e as Carmelitas, de fato, são filhos daqueles eremitas que, tendo construído a igreja onde celebravam cotidianamente a Eucaristia, no centro das próprias celas, dedicaram aquela Igreja a Santa Maria, colocando-se, assim, sob o patrocínio da Mãe do Senhor daquele lugar, a Terra Santa, Cristo Jesus. O transcorrer dos séculos revigorou e aprofundou dos mais variados modos essa relação privilegiada dos Carmelitas com Maria, a ponto de se dizer que “o Carmelo é todo de Maria”. No interior da Ordem desenvolve-se uma vivência e uma doutrina de vida “mariaforme e mariana” (assim o venerável Miguel de Santo Agostinho intitula uma de suas obras), que tem uma grande importância para toda a Igreja. Também a assim chamada “mística mariana” é da casa ao Carmelo, mais do que em qualquer outra espiritualidade cristã[57]. Quando, em épocas de transição, procuram-se no Carmelo os meios de preservar a identidade e a espiritualidade autênticas herdadas das origens, “nascem as ‘reformas’, em moto contínuo, com uma atenção a Maria mais intensa. [...] Toda reforma tem uma nova carga de devoção mariana”[58]. Também na “mais estreita observância” de Siracusa, denominada “Santa Maria, escada do paraíso” e, como conseqüência, na religiosidade do povo de Spaccaforno, não falta uma acentuada e afetuosa devoção a Maria, modelo de oração e de dedicação somente a Deus, além de padroeira atenta e poderosa e mediadora de graça divina.

 

Maria Crucifixa, a “Terna Mãe” e a missão

Maria Crucifixa está muito bem inserida nessa característica da vida e do desenvolvimento do Carmelo, com seu insistir sobre Maria como “terna Mãe”, expressão que encontramos por toda a parte em seus escritos que falam sobre Nossa Senhora, desde a narrativa da inspiração fundamental que lemos na abertura e na qual a “terna Mãe” exerce o papel de inspiradora. Sobre tal expressão típica, reveladora de uma relação particular com Maria, parece-me que há ainda necessidade de refletir[59].

Posteriormente, é exemplo emblemático o modo como ela vive o aspecto mariano de seu ser carmelita, o modo como adota da tradição e adapta à oração - sua e do Instituto - um antigo hino dos Carmelitas para “sua” Senhora. A oração que segue todos os dias as Laudas Matutinas das Carmelitas Missionárias de Santa Teresa do Menino Jesus, de fato, é formada pelas duas primeiras estrofes do Flos Carmeli, ao qual foi acrescentado um agradecimento por Sua proteção e uma invocação a fim de que a “Virgem do Carmelo” infunda em cada religiosa da Congregação um verdadeiro espírito de apostolado que permita fidelidade à missão do instituto na Igreja, isto é, aquela total dedicação “à vida missionária e à assistência da juventude, especialmente daquela pobre e necessitada”[60]. O íntimo vínculo entre dimensão mariana e vocação apostólica é também tipicamente carmelita; mais ainda, é próprio das congregações femininas de vida apostólica filiadas ao Carmelo (três fundadas na Itália). Não por acaso as fundadoras desses institutos, apesar da profunda disparidade de épocas, lugares e circunstâncias em que agiram, encontraram sempre na Senhora do Carmo a inspiradora, protetora e modelo de contemplação e apostolado. Em seus Institutos, “a devoção a Maria é a alma da [...] vida porque Maria leva a Deus, Deus reporta a Maria e, como disse Santa Maria Madalena dei Pazzi, da união com Deus nasce a salus animarum, isto é, o desejo de ser pelos irmãos”[61]. No caso de Maria Crucifixa, vimos que é exatamente a “terna Mãe do Carmelo” a mediadora da vocação divina, que se configura desde o início como “missão” de fazer reflorescer o Carmelo. Não vou deter-me mais sobre este tema, deixando-o para posteriores estudos indispensáveis.

 

Conformar-se ao Dileto

Um último trecho ajuda-nos a ver um outro aspecto da espiritualidade do Carmelo que Maria Crucifixa valorizou: o amor à Cruz. Não pode existir outra explicação para quem é psicologicamente normal a não ser o amor por Cristo Jesus: Ele fez da Cruz um instrumento de salvação para os homens e quem O ama aceita todo sofrimento, toda cruz como Ele, pela salvação dos irmãos. De fato, “o amor tende à união com o Dileto”[62] e, em sua forma de ágape, é uma “energia de conformação a Deus”[63]. Assim, exatamente através de uma via de amor místico, os santos mais eminentes do Carmelo chegaram a amar a Cruz como instrumento de conformidade com o Amado, com Cristo Senhor. Plena desse amor de ágape, Maria Crucifixa escreve a suas Irmãs:

Oh! Se soubéssemos o bem imenso que produzem os sofrimentos desta vida, com Santa Maria Madalena e com os grandes santos de nossa Ordem exclamaríamos: ‘Sofrer e não morrer!’ [64]

E ainda:

A pobre Madre lhes quer tanto bem e reza muito para que cada uma tenha o verdadeiro espírito religioso. Oh! esse desejo me consome; gostaria de (ter) minhas filhas (como) santas amantes da Cruz! É este o espírito do Carmelo: ‘Amar e sofrer’[65].

Na escola dos santos carmelitas, Maria Crucifixa vive e transmite a sabedoria de que o amor ao sofrimento dado por Deus (não buscado por si mesmo) é um instrumento privilegiado para permanecer sempre e, seja como for, unidas a Cristo, para continuar sua obra salvífica na oferta reparadora de si, para participar de sua dor pelo homem sofredor e distante de Deus, mas também para compreender, por meio de algo semelhante a uma experiência direta, quanto tenha sido o preço que Ele, sofrendo, pagou por nossa redenção. Por isso, esse amor verdadeiramente típico do Carmelo pode ser compreendido somente contemplando a Paixão do Senhor, o que Rosa fez desde que era criança[66], e filtrando a sua luz todos os desconfortos e os sofrimentos da própria existência, que são vistos sob uma nova luz, compreendendo seu sentido profundo. E assim, também o amor à Cruz contém um notável impulso apostólico que Maria Crucifixa acolhe plenamente.

 

Em síntese

Para concluir esta parte da exposição, procuro retomar os pontos principais de tudo o que disse até agora, enriquecendo-os com algum detalhe.

 1.      Maria Crucifixa é Carmelita por dom de Deus, por escolha e por educação. Sua escolha pelo Carmelo foi sem tateamentos, provada durante anos no fogo da insegurança material, da incompreensão e do abandono eclesial, das contradições e das calúnias, assim como na aberta contraposição com o bispo de Noto, que ela, entretanto, venerava de coração. A solidez dessa escolha deve-se às raízes das quais deriva: ela estava determinada graças à descoberta, por meio de Santa Teresa D’Ávila, das dimensões mais autênticas da vida carmelita e por tê-las percebido intimamente segundo o modo de ser, os talentos, as exigências interiores que Deus havia dado a Rosa Curcio. À descoberta dessa consonância segue a apropriação pessoal e a conseqüente interpretação particular da espiritualidade carmelita por parte de nossa Madre para o que contribui a forte presença da referida espiritualidade no povo da aldeia de Spaccaforno. O Carmelo é, portanto, a verdade de Rosa Curcio, aquilo que lhe permite ser verdadeiramente ela mesma.

2.      Maria Crucifixa compreende e interpreta os valores e a vida do Carmelo por meio de algumas formas de devoção típicas de seu tempo, na certeza de que estas expressem e produzam o ser verdadeiramente carmelita. Assim, adota para si e para o Instituto a espiritualidade do Sagrado Coração e muitas práticas reparadoras vinculadas a essa espiritualidade, preferindo as de caráter eucarístico. A maior parte delas não é documentada nos textos legislativos do Instituto[67], mas resulta dos usos permitidos pela Fundadora e é confirmada naquilo que ela escreve às Irmãs. As mais evidentes são:

 

A apaixonada contemplação da Paixão de Jesus com o amor à Cruz e, sobretudo, a inquebrantável devoção à Eucaristia são outros aspectos da “carmelitanidade” de Maria Crucifixa e de seu Instituto, ao lado da adoção da adoração mental matutina e vespertina e das várias orações marianas (as propriamente carmelitas e as comuns a todo o Povo de Deus). De todos e de cada um desses aspectos da espiritualidade de Maria Crucifixa, inevitáveis para ela e para suas filhas, conforme seu modo de ver deriva a necessidade de dedicar-se ao apostolado ativo.

3.      A leitura dos escritos de Maria Crucifixa induz a pensar que ela, como boa Carmelita, levava muito a sério a oração contínua. Provavelmente considerava que, em qualquer forma que fosse praticada, era o distintivo da verdadeira Carmelita. Portanto, teria sido impossível pensar em fazer reflorescer o Carmelo sem dar um papel central à oração contínua. Não por acaso, no modo como Maria Crucifixa escreve, vemos o freqüente uso de “união com Deus”, como sinônimo de “oração” e – repito a afirmação de Gabriel de S. Maria Madalena – “quando o Carmelita fala da perfeição, ele a apresenta como união com Deus”. Este é um tema de grande importância que retomaremos mais adiante e que pode facilmente vincular-se a cada um dos supracitados aspectos da espiritualidade de Maria Crucifixa, que terminam sendo instrumentos para uma oração incessante, também e sobretudo, durante os trabalhos apostólicos ou comunitários, por parte de quem os adota.

 

Ispica, santuario della b. v. Maria del m. Carmelo

 

FAZER REFLORESCER O CARMELO:

O QUE SIGNIFICA PARA MARIA CRUCIFIXA

Destacamos os motivos que provavelmente levaram Maria Crucifixa a entender e viver a própria vocação como fazer reflorescer o Carmelo. Procuremos agora compreender melhor com quais perspectivas ela usa esta expressão, confrontando-a com outros textos dela que são próximos a este pelo tema ou pela época de redação.

 

Trazer novamente o Carmelo ao sudeste da Sicília

Nosso primeiro texto é extraído de uma das primeiras cartas de Maria Crucifixa, em nosso poder.

Quando ela consegue realizar a reunião estável com as companheiras em Spaccaforno, de imediato procura o reconhecimento oficial por parte da Ordem Carmelita. Escreve, então, ao Padre Pio Mayer, Prior Geral, solicitando-lhe que conceda ao pequeno grupo de Terceiras da comunidade de Spaccaforno a filiação à Ordem e a conseqüente permissão de vestir o hábito carmelita completo. Esta é uma honra a que todas as Terceiras da comunidade aspiram ardentemente por seu valor espiritual e também porque, indicando a aquisição de uma posição reconhecida e estável, propiciaria um forte incremento numérico da comunidade. De fato, na região há muitas jovens chamadas à vida religiosa, mas procuram outros institutos, porque não querem confiar a própria vida a uma instituição privada de bases sólidas, que, no entanto, seriam evidentemente garantidas pela afiliação à Ordem. A carta continua afirmando que, considerando que no sudeste da Sicília não existem comunidades de irmãos carmelitas, a comunidade de Spaccaforno não encontra quem a ajude a realizar seu ideal com verdadeira paixão. É verdade que o bispo Dom G. Blandini tem procurado ajudá-la, mas não pode compreender profundamente seu ideal de vida, não sendo Carmelita. Ao contrário, “se nosso bispo fosse Carmelita, como refloresceria o Carmelo em nossas cidadezinhas!”[68]

Reconhecemos com certeza a expressão fazer reflorescer o Carmelo. É de nosso conhecimento que, além de nas Recordações, esta é a única vez em que Maria Crucifixa usa essa expressão. Para compreender a importância dessa carta, devemos levar em consideração, além disso, que nosso texto-guia é certamente posterior a 3 de julho de 1925, enquanto o caderno das Recordações foi escrito por solicitação de Padre Lourenço, na qualidade de confessor de Maria Crucifixa, papel que assumiu somente depois da transferência da Madre para Santa Marinella. Portanto, a carta que estamos examinando lhe é anterior pelo menos 15 anos, repleta do frescor e das perspectivas dos inícios. A partir do conteúdo da carta, que recentemente apresentamos, procuremos extrair que perspectivas imediatas tinha Maria Crucifixa quando pensou em fazer reflorescer o Carmelo:

1.      Está triste pela total ausência de vida religiosa carmelita em sua região, um pouco por deixá-la sem apoio e sobretudo por significar que o Carmelo - identificado com os religiosos Carmelitas – desapareceu naquelas localidades;

2.      O reunir-se em vida comum com as companheiras, todas Terceiras Carmelitas, é o primeiro passo para o reflorescimento do Carmelo, isto é, das instituições de vida religiosa vinculadas à Ordem Carmelita;

3.      Como é um primeiro passo com muitas potencialidades de desenvolvimento, tem necessidade de toda a sustentação possível, incluindo o hábito, para garantir solidez àquele Carmelo que está renascendo;

4.      Muitas jovens da região são chamadas à vida religiosa, por isso o pequeno grupo Carmelita cresceria de imediato com o reconhecimento por parte da Ordem; poderia expandir-se e cada vez melhor fazer reflorescer o Carmelo naquelas localidades.

 

Sabemos todas como as coisas se desenrolaram naquela época e, não obstante isto, a história demonstrou que, nesse projeto de tornar a fundar comunidades carmelitas, Maria Crucifixa não se enganou. Graças a essa carta, pudemos compreender melhor o que era, no pensamento de Maria Crucifixa, fazer reflorescer o Carmelo, ao menos em um primeiro nível: fazer renascer instituições religiosas carmelitas de nome e de fato (por meio da afiliação à Ordem), convocando para elas vocações religiosas.

 

Paralelo entre dois textos sobre a “missão” de Maria Crucifixa

Para compreender mais profundamente tentemos agora colocar paralelamente dois textos que já lemos[69] e nos quais Maria Crucifixa fala com Padre Lourenço sobre a inspiração dada a ela por Deus com relação a sua missão e seu Instituto, tornando claro, assim, o que estava acontecendo.

 

MFR , p. 13

MFD, 3.12.1925

 

[...] chorar  as próprias infidelidades e as dos outros

[...] Sentia A Grande Missão que a TERNA MÃE

e oferecer-se Vítima de Expiação juntamente com

DO CARMELO me havia predestinado, isto é, eu

GRANDE MÁRTIR DE AMOR. Meu Pai, JESUS

Deveria reunir-me com outras minhas companheiras

tem necessidade dessas almas restauradoras da

e fazer reflorescer o Carmelo em nossa cidadezinha e em tantas outras.

pobre humanidade. [...]

 

É UMA DAS IMPORTANTES MISSÕES que nos

 

confiou nesta nova Instituição.

 

Notemos, antes de tudo, que os dois textos que colocamos paralelos poderiam estar lado a lado com outros do Diário Espiritual ou das Cartas que retomam o mesmo tema; preferi estes, visto que a maneira como estão expressos os conteúdos que nos interessam torna esses textos eminentes entre todos os outros. Lendo, deve-se levar em conta o quanto já foi dito acima sobre a datação provável das Recordações, por isso a redação dos dois trechos aqui colocados em confronto poderia estar não muito distante no tempo. Nossos dois textos tornaram-se próximos também por seu caráter confidencial e pelo fato de que são escritos por solicitação respeitável de Padre Lourenço. Enfim, ainda que sejam diferentes as recordações da adolescência e dos inícios da vocação (contidas nas Recordações) e os relatos das experiências espirituais cotidianas (do Diário Espiritual), nossos textos estão ambientados – ambos - em momentos de intensa oração, durante os quais Maria Crucifixa narra como lhe vem esclarecida a consciência do quanto Deus lhe pede para realizar por Ele.

A diferenciação de caracteres utilizada na redação da sinopse dos trechos ajuda a ver os paralelos e as disparidades entre as duas. Vejamos nos particulares:

 

1.      quem confia a missão:

 

2.      relação entre a pessoa que confia a missão e a missão confiada:

Essas formas de apresentar o tutor da missão são, portanto, particularmente significativas, porque estreitamente correlatas à missão que é confiada;

 

3.      modo de confiar a missão:

Essa observação evidencia o fato de que Maria Crucifixa acolhe docilmente a própria missão como algo que sabe que Deus tem necessidade e para o qual Ele a preparou em seu eterno projeto. Retomando quanto foi dito antes, vejamos como esta missão é “a verdade” de Maria Crucifixa, porque é aquilo que a faz ser ela mesma;

 

4.      qual missão é confiada:

Já demonstramos como, no pensamento de Maria Crucifixa, vida carmelita e espiritualidade reparadora estão profundamente integradas. Surge, então, o problema para compreender se fazer reflorescer o Carmelo e restaurar a humanidade não são efetivamente conceitos coincidentes e substituíveis um pelo outro. Procuremos a resposta em nossos textos;

 

5.      definição do quanto é confiado:

 

Para além de exageradas sutilezas filológicas que não se destinam à correta compreensão do pensamento de Maria Crucifixa, fica evidente que em nossos dois textos ela fala de duas realidades não-coincidentes, mas a segunda faz parte da primeira. De fato, MFR usa termos de unicidade, excelência e precisa determinação: a (artigo definido) grande (superior às outras e no singular) missão (no singular, portanto, única, e escrita no original com letra maiúscula); MFD usa termos mais gerais: uma (artigo indefinido) das missões (no plural, portanto, existe mais de uma) importantes (sempre no plural, mas todas importantes). Em outros escritos seus, Maria Crucifixa repete que aquela da reparação é uma missão, ou seja, sua missão e de suas filhas.

Portanto, é evidente que:

 

No Carmelo e pelo Carmelo, como reparadoras

Estando assim as coisas, para articular corretamente os elementos do carisma de Maria Crucifixa e de seu Instituto, deveremos ver a tarefa de fazer reflorescer o Carmelo como eixo ao redor do qual circulam todas as outras partes do carisma apostólico como motivo e escopo de sua existência[70], que se caracteriza e se enraíza nas principais atitudes oblativo-reparadoras vinculadas ao culto do Sagrado Coração de Jesus, instrumentos privilegiados tanto de seu apostolado quanto de seu modo de viver como contemplativas na ação, em oração contínua.

 

Em síntese

Devemos, então, afirmar que a missão confiada a Maria Crucifixa foi a fundação da Congregação das Carmelitas Missionárias de Santa Teresa do Menino Jesus e que o motivo de sua existência é dado pelo desejo divino de fazer reflorescer o Carmelo: nelas isto se realiza e, implicitamente, a elas é confiada a tarefa principal do incremento contínuo de tal renascimento. Surge, entre as tarefas que lhes são confiadas, como princípio unificador e harmonizador, de modo similar àquele que foi para Maria Crucifixa, ainda que com modalidades diversificadas.

Entre as múltiplas tarefas confiadas por Deus para continuar a revitalização do Carmelo, há um papel absolutamente eminente que é o de satisfazer a necessidade divina de pessoas capazes de “restaurar a humanidade”, oferecendo-se como vítimas expiadoras e trabalhando para uma reparação, seja espiritual-penitencial, seja apostólica, com a finalidade de trazer de novo os homens para a comunhão com Deus. Assim, a restauração da humanidade que as Carmelitas Missionárias de Santa Teresa do Menino Jesus têm como compromisso e, em toda sua amplitude de significados, plenamente reconduzível ao reflorescimento do Carmelo, é articulação essencial porque caracteriza o carisma específico de Maria Crucifixa e de seu Instituto no amplo espectro de experiências ligadas ao carisma do Carmelo e é também a explicitação demodelo mais estreitamente apostólico-prático.

 

 

O CARMELO QUE REFLORESCE

As Carmelitas Missionárias de Santa Teresa do Menino Jesus

Procuremos agora, mediante as exortações da Fundadora às Irmãs, compreender melhor como ela percebe o próprio carisma e como o transmite. Das Cartas emerge um retrato ideal da Carmelita Missionária de Santa Teresa do Menino Jesus que Maria Crucifixa esboça, quase sem se dar conta. Os primeiros regulamentos do Instituto (integrados pelas intervenções de Padre Lourenço com o intuito de torná-los canonicamente aceitáveis) só parcialmente poderão vir em nosso auxílio, por causa da “contração jurídica” pela qual foram limitados[71]. Lendo nas entrelinhas, poderemos compreender ainda mais profundamente o que Maria Crucifixa pensava fazer para fazer reflorescer o Carmelo.

 

Sintonizar o carisma do discípulo com aquele do Instituto

Dissemos na Introdução que não basta pertencer institucionalmente a uma congregação religiosa para ser partícipe de seu carisma, mas que, para obter essa participação, é necessário realizar um profundo e contínuo esforço de sintonia entre a própria bagagem pessoal de dotes e experiências e o carisma do Instituto. Maria Crucifixa percebia o quanto isso era verdadeiro e jamais desistiu de exortar suas Irmãs a trabalharem espiritualmente neste sentido, também e sobretudo quando deixavam a casa de Santa Marinella pelas comunidades filiais. Por isso, as Cartas de Maria Crucifixa permitem delinear os traços evidentes para um retrato da Carmelita Missionária de Santa Teresa do Menino Jesus, isto é, daquela em que concretamente o Carmelo está reflorescendo e que, como Missionária, é também um instrumento para fazer reflorescer o Carmelo em todo o mundo.

 

Mulheres totalmente de Deus

Uma Carmelita Missionária de Santa Teresa do Menino Jesus deve ser uma pessoa que pertença totalmente a Deus, vivendo até as últimas conseqüências a própria consagração religiosa, seus esponsais com Cristo. Isto quer dizer, acima de tudo, não fechar ao domínio do Esposo parte alguma da própria pessoa, isto é, “não recusar nada ao Esposo Divino”[72], “não negligenciar nada pela conquista da perfeição”[73].

Santa Terezinha jamais disse não a Jesus nos pequenos sacrifícios [...]! Imitemo-la, embora tardiamente e também nós, reparando o passado, poderemos atingir a perfeição que juramos aos pés dos Altares[74].

Maria Crucifixa estava bem consciente de que, para obter essa total disponibilidade a Deus, era necessário um espírito de total abnegação. Entre 1909 e 1910, o Padre Beccaro,ocd lhe havia escrito estas palavras que ela mesma relatou muitos anos depois a Padre Grammatico: “É vontade de Deus vossa reunião, contanto que reine o espírito de abnegação”[75]. Assim, para ela, “a essência dos votos religiosos (é) despojar-se para sempre da própria vontade”[76]. Tal despojamento exige uma luta incessante:

É necessário combater sempre as paixões e destruir sem piedade aquilo que nos faz inclinar em direção à terra. A luta contra nossas paixões termina no leito de morte, depois de ter deixado para sempre nosso pobre corpo. Não percamos a coragem[77].

Como alguém que fez certas experiências na própria pele, consola e aconselha sem ares de superioridade:

Fico tão feliz em saber de seus santos desejos em querer corrigir-se e, se muitas vezes você não consegue, não deve desanimar, mas humilhar-se diante de Deus; as faltas, desde que não sejam cometidas de olhos abertos e por obstinação, mas por fraqueza e involuntariamente, nos tornam humildes diante de Deus e isso é a base da vida religiosa. Procure, então, extrair a humildade de sua fraqueza[78].

 

A humildade é a virtude sobre a qual Maria Crucifixa insiste muito, deixando saber que, juntamente com o amor de ágape, é indispensável para poder viver verdadeiramente o dom da vocação ao Carmelo: “Louvemos sempre o Senhor e agradeçamos-lhe nossa Grande Vocação que nos torna semelhantes a Maria e nos impõe a obrigação de copiá-la para melhor corresponder e (dar) maiores frutos de verdadeira perfeição. Devemos sempre repetir o Magnificat na alegria espiritual e nos dias sombrios e tenebrosos, nas humilhações, sempre prontas e generosas na correspondência às divinas inspirações, especialmente àquelas que se referem à prática da humildade e da caridade”[79]. A vocação religiosa é comprometedora, exige total fidelidade às Regras que prometemos viver. Por isso, “a inobservância (é) a ruína da Vocação”[80], e a Madre chega mesmo a escrever para uma Superiora: “Desejo saber como observam a Regra nas horas livres. Seria um desastre se, por causa do trabalho, negligenciassem os meios que alimentam a vida espiritual”[81]. Tal fidelidade, mais e antes de ser um fato de execução de prescrições, é fruto daquela busca de sintonia com o carisma do Instituto, sobre o qual já falamos; por isso, Maria Crucifixa escreve: “Reze muito para saber organizar-se segundo o espírito de nossas preciosas prescrições”[82].

A forte tensão para um empenho de fidelidade radical à vocação do Instituto é mantida viva pela chamada contínua para o fato de que a vocação é um precioso dom, sinal de sua predileção pela pessoa chamada:

Espero que conserve sempre com grande fidelidade os dons imensos que somente no céu compreenderemos: a Vocação. Seja fiel ao Esposo que a escolheu entre milhares. Demonstre sua gratidão sempre mais ardente com a observância dos preciosos votos[83].

Essa fidelidade radical é exigida pela totalidade de amor que Deus derrama sobre a pessoa consagrada, levando-a a amar como Ele e, portanto, também a educar os próprios afetos:

De nossa parte, com o auxílio divino, não podemos fazer outra coisa senão desapegar o coração dos afetos humanos. Não digo que não devamos amar, porém amar em relação a Deus, a Ele em primeiro lugar. Quando a alma possui tal Amor, pode amar os parentes e qualquer tipo de pessoa com a segurança de jamais se apegar às coisas aqui debaixo[84],

que podem afastar do amor de Deus.

 

Irmãs que se amam por causa de Cristo

O primeiro âmbito no qual tal amor de ágape se manifesta, se confirma e se exercita é a vida em comunidade. Maria Crucifixa quis que suas filhas, nesse âmbito, se pertencessem reciprocamente de modo total na liberdade dos filhos de Deus e na abnegação de si à imitação de Cristo (A respeito de uma co-irmã de caráter difícil):

Use de caridade e compaixão – esta é nossa vocação: caridade para com Cristo e para com o próximo. Assim, respondemos generosamente Àquele que se sacrificou totalmente para salvar-nos e dar-nos o exemplo. Tenha um coração grande e generoso – assim são as verdadeiras religiosas, as verdadeiras Esposas do Crucificado – não limite suas forças. Ame muito para sacrificar-se com amor por sua família religiosa[85].

Eis por que insiste tanto, às vezes até com uma certa severidade, sobre a caridade fraterna, como algo que pode vir unicamente de Deus e de seu Amor:

É tão fácil amar, é a necessidade do coração humano. Não se pode compreender quando as almas religiosas não sentem isso, mas a causa é falta de amor para com Deus. A alma religiosa que ama a Deus, ama o próximo, e essa caridade é a luz. Para saber organizar-se na via da perfeição é o guia e a força. Obtenham o verdadeiro Amor que forma os santos na fonte eucarística[86].

 Queria saber se vocês se amam e se esse amor jorra das Chagas de Jesus-Hóstia. Queria sua perfeição na prática do sacrifício, na humildade e na caridade ardente! Queria vê-las felizes e plenas de zelo pela salvação das almas que lhes são confiadas e na oração por nossa querida Pátria que atravessa um período perigoso e por todo o mundo[87].

 

Irmãs a serviço dos irmãos, por Deus

A fraternidade interior da Família Religiosa e da comunidade, segundo o princípio pelo qual o amor se difunde e contagia espontaneamente e em sintonia com o estilo do Carmelo, estende-se aos “irmãos que nos foram confiados por Deus”, aqueles em perigo, aqueles que não conhecem nem amam o Senhor, assim como a todas as situações problemáticas de que tomamos conhecimento que, como acabamos de ver, não estão ausentes da oração e das preocupações de Maria Crucifixa e de suas Irmãs. De fato, “o tipo de contemplação depende do tipo de atenção. Eis que a contemplação do apóstolo é diferente daquela do monge. No apóstolo é feita mais de fulgurações do que de êxtases”[88] e se alimenta dos acontecimentos cotidianos e das necessidades dos irmãos, fazendo uma nova leitura em companhia do Cristo e á luz de seu Evangelho, para subir os degraus que levam próximo a Ele e aos irmãos. Assim, a Carmelita Missionária de Santa Teresa do Menino Jesus é uma religiosa que, por força de sua completa pertença a Deus, se põe totalmente a serviço dos “irmãos que Deus lhe confia”.

Para Maria Crucifixa, esses irmãos – dos quais se tornar irmã de modo especial por causa de Cristo – não são escolhidos com base no critério de sua maior ou menor necessidade nem mesmo segundo as necessidades pastorais do lugar. A garantia divina é um motivo a mais para vincular à contemplação o serviço a eles e por isso não leva Maria Crucifixa a negligenciar – nem na oração nem no apostolado – os outros homens e suas necessidades, sobretudo as espirituais. Na longa página MFD 03.12.25, que citamos anteriormente, encontramos um texto emblemático da forma como Maria Crucifixa vincula sua missão de reparação e evangelização no próprio coração de Cristo[89]. Não por acaso ela exorta:

Sempre, minhas boas e queridas filhas, busquemos no Coração de Jesus-Hóstia-Amor para falar às almas que se aproximam sobre aquilo que sentimos no espírito, o Amor por nosso Sumo e único Bem[90].

A ação apostólica é inspirada, guiada, exigida, reforçada e finalizada em toda sua dimensão pela relação com Deus-Amor. Maria Crucifixa reza por amor de Deus e isto plasma em obra de amor toda sua ação: A finalidade da oração não é agir bem, embora a boa ação seja promovida por aquilo que o orante percebe como pedido ou necessidade de Deus e não por sua iniciativa pessoal. Assim, para Maria Crucifixa não é verdadeira a oração que não redunda em uma ação apostólica plena de amor a Deus e aos homens, destinatários daquela ação; da mesma forma, para ela não é concebível qualquer forma de ativismo, uma ação apostólica ditada somente pela filantropia ou, menos ainda, que não leve a Deus tanto os usuários quanto os agentes daquela atividade. Não é de espantar que Maria Crucifixa escreva: “Sejamos rec